Eram 15h50 de um dia que começou às 9h30 quando me lembrei que este monstro peludo que vos abraça faz hoje 4 anos. Mentalmente dei-lhe os parabéns com uma indiferença que entretanto me abandonou às urtigas. Decidi, por isso, que vou dançar o hip-hop e concentrar-me no grande festim com suas réplicas, não vá o nó da garganta desatar-se e eu pôr-me a gritar com as tripas à moda do Porto.
(I came to dance not to socialize, aquilo que muita gente não percebe quando me tenta engatar numa pista de dança só porque estou lá sozinha.)
Porque é que eu não sabia que este mulherão fazia boa música? E que era uma bitch da dança? Porque, por algum delírio inexplicável que se explica por uma assimilação visual, eu tomava-a por uma Ace of Base, uma Roxette ou uma di-da da ra-ra (deixa cá ver... isso, Whigfield). Ora, essas podem ter sido paixões de infância (que no caso dos Ace Of Base mantenho sem pudor), mas não serão certamente coisas que eu investigaria hoje e às quais daria crédito. E é assim que depois somos surpreendidos com um álbum perfeitinho e viciante.
Estive a falar com Deus e Ele disse-me que a nova versão da Mulher trará incorporada um kit photoshop para o Homem poder fazer-lhe os retoques que entender.
I’m gonna love you like I’ve never been hurt before, canta Robyn. Mas antes que lhe apontes o dedo à ingenuidade, deixa-me dizer-te que esta é uma promessa impossível que deves fazer sempre. Não ao outro, mas a ti próprio(a). Como um compromisso de (corajosa) sobrevivência.
Os meus graus de tristeza têm sido de bom para baixo, todos, com ligeiras nuances devido aos fármacos, essas invenções que nos impedem de foder bem, estraçalhar alguém contra uma parede, comer com gosto, beber sem amanhã e pensar.
No penúltimo texto falei sobre os problemas laborais dos jovens portugueses ou, mais exactamente, sobre a infantilização crescente que lhes é imposta, condenando-os a, já depois dos trinta, viverem em casa dos pais, saltando de estágio em estágio ou de bolsa em bolsa. Mesmo a qualificação crescente a que são sujeitos, condenados a um sem fim de cursos, formações, pós-graduações, mestrados e doutoramentos, acaba por ser um peso e a marca de uma injustiça – estuda-se porque não se pode trabalhar.
Uma solução possível, que pode parecer pouco eficaz, é na verdade bastante simples: as pessoas mais novas devem votar sempre que puderem. Já várias vezes se comentou que se vota mais entre as camadas mais velhas do que as mais novas. Se os jovens começarem a votar mais cedo e em maior número pode ser que comecem a ser mais ouvidos – boa parte dos políticos só pensa em vencer eleições.
Mas boa parte dos jovens portugueses passam mais de uma década no limbo, ocupados em coisas que não são nem estágios, nem empregos, nem aprendizagem nem ensino, nem desemprego, nem emigração. É um estado de precariedade e de exclusão que vai minando a capacidade para acreditar na sociedade em que se vive: fazer trabalho produtivo durante anos sem receber qualquer tipo de dinheiro ou legitimidade é uma excelente maneira de formar cínicos ou conformistas.
Sabendo que os funcionários públicos começariam a partir de hoje a receber salários tão emagrecidos quanto eu, decidi-me a fazer uma visitinha às Finanças e a demonstrar-lhes a minha solidariedade com mais uma retençãozinha na fonte.
Não é falta de vontade. É falta de gostar. Não se escolhe ver ali um aborrecimento ou sentir um carinho sofrido. Das duas uma: ou é cobrança, ou o termo nem te ocorre. Acontece que o homem não se revê no comportamento da amante que se debate do canto a que o remeteu, e onde também se encolhe. Legítimo. Nenhum dos lugares ocupados pelos dois amantes é censurável. Os olhos não escolhem o que o coração não sente.
Lançada no aiTonecas para download aiLegal no finzinho de 2009, Tore My Heart nada quis com os meus ouvidos até ao iniciozinho de 2011. Foi preciso que eu perdesse uma tarde a ver iutubinhos do So you think you can dance para que a descobrisse. Não faz mal, o efeito surpresa compensou a falta que a música não me fazia (não podia). Durante esse hiato, aparentemente nada aconteceu e está tudo bem connosco: o primeiro álbum só agora está a ser lançado e ainda vamos a tempo de abraçá-lo antes que se torne um fenómeno do qual não podemos gostar. Chama-se Shhhhout! e, tanto quanto me pude aperceber, não pia como Tore My Heart. Nem em estilo, nem em rasgo. Não sei (ainda) se o dito grito é bom ou mau, só sei que é pena. Porque o magnetismo do tema ali acima explica-se num instantinho: poderia ser uma música de My Brightest Diamond, com a noção de dramatismo sexual do incrível Missed Me dos Dresden Dolls. Espero que tenham percebido tudo.
Inaugura hoje a primeira exposição de fotografia da Matilde Viegas, na Maria Vai Com As Outras (Rua do Almada, 443, Porto), às 22h. Por esta altura, já se terão apaixonado pela fotografia emprestada ao cartaz e já terão ido a correr para os braços da vossa agenda, marcando um dia para visitá-la. Têm até 18 de Fevereiro.
Peter, Peter pumpkin eater, Had a wife but couldn't keep her; He put her in a pumpkin shell And there he kept her very well. Peter, Peter pumpkin eater, Had another and didn't love her; Peter learned to read and spell, And then he loved her very well.
Este vídeo é perfeito. E é perfeito porque vai exactamente de encontro àquilo que a música me transmitia. Que eu não sabia o que era e que agora sei que é isto.
(Gostava de ter um quadro bem grande por cima da cama com a última imagem.)
Alguém perguntou ao Google o que é que eu já escrevi sobre futebol, que ataque alberto joão jardiniano me ia dando, o que me terá acontecido para descarrilar desta maneira, estarei em crise como sempre? Ontem fui a uma festa onde aquilo que eu pensava que ia comer não comi (bolo. as fufas eu já sabia que era pouco provável) e onde aquilo que eu pensava que ia ganhar não ganhei (excesso de álcool no curto circuito). Não, desgraça, não podia ter saído mais defraudada: apenas voltei para casa com um pedido de orçamento (por pessoa 1) e com o convite mais espectacular de sempre (por pessoa 2). Acho eu que aquilo era um convite. Tendo em conta o elevado volume da música de fundo e o balão fálico que a invertida tinha na cabeça, eu já não digo nada.
E assim era eu aos 18 anos: cheia de chicha; em Coimbra, agarrada a um preto. Obscena, a exibição da queda do império: concordo. Aqui, simultaneamente, o testemunho do que me torna hoje irreconhecível e do que nele houve de premonitório. Hã?? Eu sei, não fazes parte dos 20 xuxus habilitados a compreender este istribilino post – mas não faz mal, amanhã há mais.
Mefisto tinha por hábito morder-lhe o sono. Dedilhava missivas nas suas costas nuas quando pressentia que o seu discernimento esmorecia, moldando-lhe o torpor como pastilha elástica. Depois, nas manhãs de ronha, se lhe assomava uma breve memória aos lábios, ela perguntava-lhe que palavras se cosiam às outras entendera: nós, corda, pele, poço. Ele jamais a esclarecia, acusando-a severamente de negligência. Mas o lugar do réu não a confundira e, numa noite de beijos e de calma malícia, a menina antecipou-se e pediu-lhe com doçura que lhe gravasse uma frase habitual, uma que pudesse um dia, pensou para si, arremessar como prova. Depressa despiu a camisola, entregando-lhe a nudez ao grafite dos dedos – e leu: deixei-te um pássaro na mão. Desconcertada, não sorriu. Fechou-se num nó fetal e esperou que ele viesse completá-la. Horas passadas, ainda a manhã se espreguiçava e já o sol invadia todos os recantos do quarto, vencendo o vidro baço da humidade, e ela, despertando como se não tivesse chegado a adormecer, ergueu-se nos cotovelos e sussurrou-lhe ao ouvido: olha, amor, o teu pássaro. Parti-lhe o pescoço.
O pintor iria “nascer” nessa noite, quando Malangatana foi a casa de Augusto Cabral e o viu a pintar um painel. “Ensine-me a pintar”, pediu. E Augusto Cabral deu-lhe tintas, pincéis e placas de contraplacado. “Agora pinta”, disse ao jovem, ao que este perguntou: “pinto o quê?”. “O que está dentro da tua cabeça”, respondeu Augusto Cabral.[Público]
Este parágrafo da notícia que nos dá conta da morte de Malangatana é extraordinário. Pudesse eu, com esta facilidade e engenho, começar, assim da mão para o pincel, a expressar artisticamenteo que vai nesta cabeça. Que, aliás, está imunda, já que nunca encontrei um(a) empregado(a) que a deixasse arejada sem antes me partir as porcelanas – só cacos.
Que Malangatana, homem de várias faces sob um nome que dança, tenha arrumado as malas uns dias depois de eu ter visto um pequeno filme em homenagem à arquitectura de Pancho Guedes em Maputo é um pitz creepy. Porque se foi Augusto Cabral a pô-lo nas tintas, foi Pancho Guedes, arquitecto português que decidiu ir ser espectacular para as Áfricas, a dar-lhe a benção, o empurrão e o sustento que faltava (comprava-lhe dois quadros por mês, por deus, e a mim nada. Mas temos tempo). O motivo que me levou a partir à descoberta do trabalho de Malengalenga é pouco ortodoxo e não interessa ao Menino Jesus, mas devia. Já o pequeno filme experimental de Christopher Bisset em torno da obra do nosso Pancho deveria interessar-vos a todos (é que traz magia e tudo). Nos entretantos, abandono-vos ao meu Malangatana mais venito:
Ainda me lembro do meu contentamento quando este blogue atingiu a média diária das 100 visitas, o único número que eu almejei alcançar por corresponder à minha ideia de blogue de sucesso – o sucesso possível a uma anónima que se pretende anónima e que cria um blogue para as suas catarses. 100 visitas, pronto, já está. Não sei explicar como é que atingimos todos este magnífico descalabro, mas posso garantir-vos que não sou a mesma pessoa de há quatro anos atrás excepto quando sou a mesma pessoa de há quatro anos naquilo que nos/vos interessa, e sendo eu mais-para-mais ou mais-para-menos esta miúda espectacular, é também con seguridad que vos asseguro que sou isso tudo e mais além até ao infinito, só que com a peitaça feita balão de espanto.
2011 começa bem: 1003 subscritores no Google Reader. Desconfio que estão todos mortinhos por contribuir para a minha felicidade, por isso mostro-me desde já disponível para vos fornecer o meu NIB. Não têm de quê!