20.7.17

-

Não há povo mais americano do que o irritante a falar.

Pow-pow-pow, Blue's Clues

Adivinha quem foi à vida.

(.)(.)

Celebremos esta vitória civilizacional com "a" coolness do ano passado.

I just woke up one day and randomly wrote a song about having no titties. I’m really into the fact that I could walk into any room and snatch any man in there like it’s nothing. A cup, baggy sweatpants, and a fucked up ponytail and they’ll still love me. I am one captivating son a bitch, and “Tomboy” is about that juice. Who I am and what makes me me, the New York City project rat; the messy but beautiful; the sloppy but still sexy. When you got the juice, everybody wants to drink from your pitcher. 

I mean, our society has created these unattainable body images and beauty “norms” that are super un-relatable for people like us. So that’s why you got to make it work for you. I make my own shit work for me—I manipulate the male gaze. This is my body, and you’re going to look at me, world, whether or not you like it. But they all do [Laughs].

19.7.17

-


© Menina Limão

A primeira foto dos 32, na Casa do Gigante.

18.7.17

Good times for a change

Haven't had a dream in a long time
See, the life I've had can make a good man bad
So for once in my life let me get what I want
Lord knows, it would be the first time

Anedotário

Pergunta a caricatura ao indivíduo: «O que é que achas da emancipação do sujeito em Rancière?» Isto num jantar de aniversário/noite de copos com dezenas de pessoas, e para início de conversa. Valha-me a santíssima. Há pessoas que por deus. A única emancipação que podem conhecer é a do sujeito ribanceira abaixo.

17.7.17

Madrugadas XII

Y recorrer al niño
que quiso parecerse
al hombre que no ha sido.

Y cada noche verle
llorar en los rincones.

Y cada noche oírle
decir que lo sabía.


Fernando Valverde, Razones para huir de una ciudad con frío (2004)

Museu de História Natural

À criança que eu não cheguei a ser e à adulta que o sabe

E ao meu amigo Triceratops

com um high five da Iguanodon:

...a 1984 photograph of a life-size brontosaurus being transported by helicopter to the Boston Museum of Science, by Arthur Pollock.

15.7.17

Tautologia

12.7.17

Entrevistas

Tem sido muito educativa esta vida de entrevistas de emprego. Desde a empresa que invadiu o meu whatsapp para me responder a uma candidatura que fiz por e-mail, exigindo que eu tratasse com eles exclusivamente através da aplicação, à funcionária de uma outra empresa que me olhou como se eu fosse um alien (ou estivesse claramente a mentir) quando lhe respondi que não tinha facebook (e não tinha) para submeter a minha candidatura (outra invasão de privacidade nada pequenina, no meu entender retrógrado), ao entrevistador que, numa outra empresa, me disse que "nunca tinha visto um designer com tantas preocupações fiduciárias", porque, imagine-se, eu perguntei quanto pagavam (ao fim de quase uma hora de entrevista, ele não achara importante mencioná-lo), acrescentando de seguida que "geralmente, os designers estão mais preocupados com os vectores e as cores e essas coisas", pois toda a gente sabe que os designers vivem dos castelos que desenham no ar e do prestígio que lhes conferem os arco-íris que projectam no mundo, e nunca precisam de ingerir mais do que as merdas que lhes dizem para sobreviver. Bem dizia a wastedrita: "I'm an artist and I need money like anyone else". Já devia ter comprado o raio da t-shirt.

A partir de uma história verdadeira



Delphine de Vigan, A Partir de Uma História Verdadeira, Quetzal, trad. Sandra Silva

Biografia não autorizada

Muito curioso que o título da minha biografia não autorizada seja «A partir de uma história verdadeira». Ainda para mais porque o livro passa o tempo a jogar com as noções de ficção e autobiografia, ficção e verdade, autoria, etc. Para minha surpresa, a obra vai além da história de manipulação entre as duas personagens, que foi o que me seduziu, aliás, que me impeliu a lê-lo (qualquer pessoa que já tenha vivido ou presenciado de perto uma relação manipuladora reconhecerá a mestria e eficácia com que o fenómeno é aqui descrito), resultando num livro inteligente, com várias camadas e que está sempre a comentar-se a ele próprio, mesmo quando não parece, e a baralhar as cartas, até à última linha. Nunca cansa, até porque Delphine de Vigan dá a impressão de estar simplesmente a contar uma história.

(Era simpático poder discutir este livro com pessoas, mas já sei que nunca ninguém o lerá. Pior, daqui a uns meses, toda a gente terá visto o filme, que será uma merda (mark my preconceived words!) Ca sina mais triste.)

8.7.17

FEAR.

Poverty's paradise
I don’t think I could find a way to make it on this earth
I've been hungry all my life

(...)

Why God, why God do I gotta suffer?
Pain in my heart carry burdens full of struggle
Why God, why God do I gotta bleed?
Every stone thrown at you restin' at my feet
Why God, why God do I gotta suffer?
Earth is no more, won't you burn this muh’fucka?
I don’t think I could find a way to make it on this earth

(...)

If I could smoke fear away, I'd roll that mothafucka up
And then I'd take two puffs
I'm high now, I'm high now
I'm high now, I'm high now

(...)

I'll prolly die anonymous
I'll prolly die with promises
I'll prolly die walkin' back home from the candy house
I'll prolly die because these colors are standin' out
I'll prolly die because I ain't know Demarcus was snitchin'
I'll prolly die at these house parties, fuckin' with bitches
I'll prolly die from witnesses leavin' me falsed accused
I'll prolly die from thinkin' that me and your hood was cool
Or maybe die from pressin' the line, actin' too extra
Or maybe die because these smokers are more than desperate
I'll prolly die from one of these bats and blue badges
Body slammed on black and white paint, my bones snappin'
Or maybe die from panic or die from bein' too lax
Or die from waitin' on it, die 'cause I'm movin' too fast
I'll prolly die tryna buy weed at the apartments
I'll prolly die tryna diffuse two homies arguin'
I'll prolly die 'cause that's what you do when you're 17
All worries in a hurry, I wish I controlled things

(...)

When I was 27, I grew accustomed to more fear
Accumulated 10 times over throughout the years
My newfound life made all of me magnified
How many accolades do I need to block denial?
The shock value of my success put bolts in me
All this money, is God playin' a joke on me?
Is it for the moment, and will he see me as Job?
Take it from me and leave me worse than I was before?
At 27, my biggest fear was losin' it all
Scared to spend money, had me sleepin' from hall to hall
Scared to go back to Section 8 with my mama stressin'
30 shows a month and I still won't buy me no Lexus
What is an advisor? Somebody that's holdin' my checks
Just to fuck me over and put my finances in debt?
I read a case about Rihanna's accountant and wondered
How did the Bad Girl feel when she looked at them numbers?
The type of shit'll make me flip out and just kill somethin'
Drill somethin', get ill and fill ratchets with a lil' somethin'
I practiced runnin' from fear, guess I had some good luck
At 27 years old, my biggest fear was bein' judged
How they look at me reflect on myself, my family, my city
What they say 'bout me reveal if my reputation would miss me
What they see from me would trickle down generations in time
What they hear from me would make 'em highlight my simplest lines

I'm talkin' fear, fear of losin' creativity
I'm talkin' fear, fear of missin' out on you and me
I'm talkin' fear, fear of losin' loyalty from pride
'Cause my DNA won't let me involve in the light of God
I'm talkin' fear, fear that my humbleness is gone
I'm talkin' fear, fear that love ain't livin' here no more
I'm talkin' fear, fear that it's wickedness or weakness
Fear, whatever it is, both is distinctive
Fear, what happens on Earth stays on Earth
And I can't take these feelings with me
So hopefully they disperse
Within fourteen tracks, carried out over wax
Searchin' for resolutions until somebody get back
Fear, what happens on Earth stays on Earth
And I can't take these feelings with me
So hopefully they disperse
Within fourteen tracks, carried out over wax
Wonderin' if I'm livin' through fear or livin' through rap
Damn

Kendrick Lamar, FEAR., em DAMN. (2017)

This what God feel like

Antologia Virtual dos Nomes Extraordinários, II (vá, alguns só compõem o ramalhete)

Margarida Amador disse (...)

(...)

Para evitar uma situação de conflito de imprevisíveis consequências, Prudêncio Canhoto apelou ao presidente da Junta de Freguesia da Salvada, Sérgio Engana (CDU), localidade vizinha de Cabeça Gorda (...)

(...)

Para acautelar a repetição de situações como a que se verificou na freguesia da Cabeça Gorda, Pedro Calado irá ter “em breve” uma reunião com Álvaro Nobre. (...)


E não, a notícia não é fictícia. Antes fosse.

2.7.17

Everybody wants to love you

Maravilha pop, meia eufórica, meia triste.

29.6.17

O Horácio

Entre a cidade de Roma e a cidade de Alba
Havia uma contenda pela dominação. Frente aos beligerantes
Encontravam-se armados, poderosos, os etruscos.
A fim de resolverem a contenda antes do ataque iminente
Colocaram-se frente a frente em ordem de batalha
Aqueles que um perigo comum ameaçava. Os chefes dos exércitos
Colocaram-se cada um à frente do seu exército e disseram
Um ao outro: porque a batalha enfraquece
Vencedores e vencidos, tiremos à sorte
Para que um homem combata pela nossa cidade
Contra outro homem, combatendo pela vossa cidade
Poupando os outros para o inimigo comum.
E os exércitos bateram com as espadas contra os escudos
Em sinal de aprovação e a sorte foi decidida.
A sorte chamou a combater
Por Roma um horácio, por Alba um curiácio.
O curiácio estava noivo da irmã do horácio
E horácio e curiácio
Foram interrogados cada um pelo seu exército:
Ele está/tu estás noivo da tua/sua irmã. Deve tirar-se
À sorte mais uma vez?
E o horácio e o curiácio disseram: Não
E lutaram entre as filas dos exércitos
E o horácio feriu o curiácio
E o curiácio disse com uma voz que se desvanecia:
Poupa o vencido. Eu estou
Noivo da tua irmã.
E o horácio gritou:
A minha noiva chama-se Roma
E o horácio enfiou a espada
Na garganta do curiácio e o sangue jorrou sobre a terra.
Quando para Roma voltou o horácio
Em cima dos escudos das tropas imunes
Ao ombro com a túnica
Do curiácio que matara
À cintura a espada-troféu, na mão a sua ensanguentada,
Vieram ao seu encontro pela porta Este
Com um passo rápido a sua irmã e atrás dela
O velho pai, lentamente
E o vencedor saltou dos escudos, por entre o júbilo do povo
Para receber o abraço da irmã.
Mas a irmã reconheceu a túnica ensanguentada
Trabalho de suas mãos, e gritou e desfez os cabelos.
E o horácio injuriou a irmã enlutada:
Porque é que gritas e desfazes os cabelos?
Roma venceu. Diante de ti está o vencedor.
E a irmã beijou a túnica ensanguentada e gritou:
Roma.
Devolve-me o que estava nestas vestes.
E o horácio, tendo no braço ainda o movimento da espada
Com que matara o curiácio
Por quem a irmã agora chorava
Enfiou a espada onde o sangue daquele que era chorado
Ainda não secara
No peito daquela que chorava
E o sangue jorrou sobre a terra. Ele disse:
Vai juntar-te àquele que amas mais do que a Roma.
E o mesmo a toda a romana
Que chorar o inimigo.
E ele mostrou a espada duplamente ensanguentada a todos os romanos
E o júbilo emudeceu. Apenas das últimas filas
Da multidão espectadora se ouviam ainda
Gritos e vivas. Aí ainda não era conhecida
A monstruosidade. Quando no silêncio do povo o pai
Se aproximou dos filhos
Já só tinha um filho. Ele disse:
Mataste a tua irmã.
E o horácio não escondeu a espada duplamente ensanguentada
E o pai do horácio
Olhou a espada duplamente ensanguentada e disse:
Venceste. Roma
Reina sobre Alba.
Ele chorou a filha, o rosto coberto
Estendeu sobre a sua ferida a túnica
Obra de suas mãos, ensanguentada pela mesma espada
E abraçou o vencedor.
Para o horácio então
Avançaram os lictores, romperam com o molho de varas e machado
O abraço, ao vencedor tiraram da
Cintura a espada-troféu e ao assassino da mão a sua duplamente ensanguentada.
E de entre os romanos um gritou:
Ele venceu. Roma
Reina sobre Alba.
E de entre os romanos um outro replicou:
Ele matou a irmã.
E os romanos gritaram uns contra os outros:
Honrai o vencedor.
Executai o assassino.
E romanos pegaram na espada contra romanos disputando
Se o horácio como vencedor devia ser honrado
Ou ser julgado como assassino.
Os lictores
Separaram os litigiosos com o molho de varas e machado
E convocaram o povo em assembleia
E o povo designou de entre si dois
Para deliberarem sobre o horácio
E entregou em mão a um
Os louros para o vencedor
E ao outro o machado da justiça, destinado ao assassino
E o horácio encontrava-se
Entre os louros e o machado.
Mas o pai pôs-se ao lado dele
O primeiro a perder e disse:
Espectáculo ignóbil que o próprio albano
Não veria sem vergonha.
Junto à cidade encontram-se os etruscos
E Roma quebra a sua melhor espada.
Vós inquietais-vos.
Roma é a vossa inquietação.
E alguém de entre os romanos respondeu-lhe:
Roma tem muitas espadas.
Nenhum romano
É menos do que Roma ou então Roma não é.
E de entre os romanos um outro disse
E indicou com os dedos a direcção do inimigo:
Duplamente poderoso
É o etrusco, se Roma está desunida
Por opiniões divergentes
Neste julgamento inoportuno.
E o primeiro justificou assim a sua opinião:
A discussão que não tem lugar
Dificulta o braço armado com a espada.
O dilema dissimulado
Enfraquece a fileira de batalha.
E os lictores romperam pela segunda vez
O abraço dos horácios, e os romanos armaram-se
Cada um com a sua espada.
Aquele que segurava os louros e aquele que segurava o machado
Cada um com a sua espada, de tal modo que agora a esquerda
Segurava os louros ou o machado e a direita
A espada. Os próprios lictores
Depuseram por um curto instante
As insígnias da função e enfiaram
No cinturão cada um a sua espada e de novo
Seguravam na mão o molho de varas e machado
E o horácio curvou-se
Para a espada, a ensanguentada, que jazia na poeira. Mas os lictores
Impediram-no com o molho de varas e machado
E o pai do horácio pegou na espada e foi também
Levantar com a esquerda a ensanguentada
Do vencedor que era um assassino
E os lictores impediram-no disso também
E as sentinelas foram reforçadas nas quatro portas
E o julgamento prosseguiu
À espera do inimigo.
E aquele que levava os louros disse:
O seu mérito apaga a sua culpa.
E aquele que levava o machado disse:
A sua culpa apaga o seu mérito.
E aquele que levava os louros perguntou:
O vencedor deverá ser julgado?
E aquele que levava o machado perguntou:
O assassino deverá ser honrado?
E aquele que levava os louros disse:
Se o assassino for julgado
O vencedor será julgado.
E aquele que levava o machado disse:
Se o vencedor for honrado
O assassino será honrado.
E o povo olhou para o autor indivisível e uno
Destes actos diversos e guardou silêncio.
E aquele que levava os louros e aquele que levava o machado perguntaram:
Se uma coisa não pode ser feita
Sem a outra que a anula
Porque o vencedor/assassino e o assassino/vencedor são um só e mesmo homem
indivisível
Deveremos nós então das duas não fazer nenhuma
De modo que haja vitória/assassínio mas sem vencedor/assassino
Chamando-se o vencedor/assassino ninguém?
E o povo respondeu a uma só voz
(mas o pai do horácio guardou silêncio):
Eis o vencedor. O seu nome: Horatius.
Eis o assassino. O seu nome: Horatius.
Há muitos homens num só.
Um venceu por Roma num combate à espada.
Um outro matou a irmã
Sem necessidade. A cada um o que lhe é devido.
Ao vencedor os louros. Ao assassino o machado.
E o horácio foi coroado com os louros
E aquele que segurava os louros brandiu a espada
Com o braço estendido e honrou o vencedor
E os lictores depuseram
O molho de varas e machado e levantaram a espada
Duplamente ensanguentada por sangues diferentes
Que jazia na poeira e estenderam-na ao vencedor
E o horácio com a fronte coroada
Brandiu a espada de modo que a todos fosse visível
A duplamente ensanguentada por sangues diferentes
E aquele que segurava o machado depô-lo,
e os romanos todos
Brandiram cada um a sua espada durante o tempo de três palpitações
Com o braço estendido e honraram o vencedor.
E os lictores repuseram a espada
No cinturão, tiraram a espada
Do vencedor das mãos do assassino e atiraram-na
Para a poeira anterior e aquele que segurava o machado arrancou
Ao assassino os louros da fronte
Com que o vencedor tinha sido coroado e entregou-os
Na mão daquele que segurava os louros e lançou ao horácio
Por cima da cabeça o pano da cor da noite
Em que ele tinha sido condenado a entrar
Porque tinha morto um ser humano
Sem necessidade, e os romanos todos
Embainharam as espadas
Para que os fios estivessem todos resguardados
A fim de que as armas
Com que o vencedor fora honrado
Não participassem na execução do assassino. Mas as sentinelas
Nas quatro portas à espera do inimigo
Não embainharam as espadas
E os fios dos machados ficaram a descoberto
E a espada do vencedor, que jazia na poeira, ensanguentada.
E o pai do horácio disse:
Este é o meu último. Matai-me em seu lugar.
E o povo respondeu a uma só voz:
Nenhum homem é outro homem
E o horácio foi executado com o machado
E o sangue jorrou sobre a terra
E aquele que segurava os louros, de novo na mão
Os louros do vencedor, agora em pedaços
Porque tinham sido arrancados da fronte do assassino
Perguntou ao povo:
Que deverá acontecer ao cadáver do vencedor?
E o povo respondeu a uma só voz:
Que o cadáver do vencedor seja exposto
Sobre os escudos das tropas, sãs e salvas graças à sua espada.
E eles juntaram mais ou menos
O que naturalmente se não podia unir
A cabeça do assassino e o corpo do assassino
Separados um do outro pelo machado da justiça
Ambos ensanguentados para formar o cadáver do vencedor
Sobre os escudos das tropas, sãs e salvas graças à sua espada
Não prestando atenção ao sangue que corria pelos escudos
Não prestando atenção ao sangue que lhes corria pelas mãos, e enfiaram-lhe
Na fronte os louros despedaçados
E colocaram-lhe na mão de dedos crispados
Pelo último combate a sua espada ensanguentada cheia de poeira
E puseram-lhe por cima as espadas nuas em cruz
Significando que nada devia profanar o cadáver
Do horácio que vencera por Roma
Nem a chuva nem o tempo, nem a neve nem o esquecimento
E choraram o cadáver com o rosto coberto.
Mas as sentinelas nas quatro portas
À espera do inimigo
Não cobriram os seus rostos.
E aquele que segurava o machado, de novo na mão o machado da justiça
Onde o sangue do vencedor ainda não tinha secado
Perguntou ao povo:
Que deverá acontecer ao cadáver do assassino?
E o povo respondeu a uma só voz
(Mas o último horácio guardou silêncio):
Que o cadáver do assassino
Seja deitado aos cães
Para que eles o despedacem
De modo que nada reste dele
Que matou um ser humano
Sem necessidade.
E o último horácio, com as marcas do choro
No rosto, disse:
O vencedor está morto, o que não será esquecido
Enquanto Roma reinar sobre Alba.
Esquecei o assassino, como eu o esqueci
O primeiro a perder.
E de entre os romanos um respondeu-lhe:
Por mais tempo que Roma venha a reinar sobre Alba
Não será esquecida Roma nem o exemplo
Que ela deu ou não deu
Pesando nos pratos da balança os prós e os contras
Ou distinguindo muito claramente a culpa do mérito
Do autor indivisível de actos diversos
Temendo a verdade impura ou não a temendo
E o meio-exemplo não é um exemplo
Aquilo que não se realizou completamente até às últimas instâncias
Volta ao nada nas rédeas do tempo a passo de caranguejo.
E retiraram-se os louros ao vencedor
E de entre os romanos um inclinou-se
Diante do cadáver e disse:
Permite que te arranquemos da mão, vencedor,
A ti que já nada sentes
A espada que é precisa.
E de entre os romanos um outro cuspiu sobre o cadáver e disse:
Assassino, devolve a espada.
E a espada foi-lhe arrancada da mão
Porque esta na sua rigidez de morte
Tinha-se fechado sobre o punho da espada
De tal modo que foi preciso partir os dedos
Ao horácio, para que ele entregasse a espada
Com que tinha morto por Roma e uma vez
Não por Roma, uma vez ensanguentada em demasia
A fim de que outros fizessem dela um melhor uso
Dela que ele tinha usado bem, excepto uma vez.
E o cadáver do assassino, dividido pelo machado da justiça
Foi atirado aos cães, para que estes
O despedaçassem completamente, de modo que nada restasse dele
Que tinha morto um ser humano
Sem necessidade ou praticamente nada.
E de entre os romanos alguém perguntou aos outros:
Como deverá o horácio ser conhecido para a posteridade?
E o povo respondeu a uma só voz:
Ele passará a ser chamado vencedor de Alba
Ele passará a ser chamado assassino de sua irmã
De um só fôlego o seu mérito e a sua culpa.
E quem falar da sua culpa e do seu mérito não falar
Que viva como um cão entre os cães
E quem falar do seu mérito e não falar da sua culpa
Que viva também entre os cães.
Mas quem a um tempo falar da sua culpa
E noutro tempo falar do seu mérito
Dizendo a mesma boca coisas diferentes em tempos diversos
Ou coisas diversas para ouvidos diferentes
Que lhe seja arrancada a língua.
Pois as palavras têm de permanecer puras. Porque
Uma espada pode ser quebrada e um homem
Também pode ser quebrado, mas as palavras
Caem na engrenagem do mundo irrecuperáveis
Tornando as coisas reconhecíveis ou irreconhecíveis.
Mortal é para o homem o irreconhecível.
Assim, não temendo a verdade impura, eles estabeleceram
Enquanto aguardavam o inimigo, um exemplo provisório
De distinção pura, não dissimulando o resto
Que não desaparecera na imparável mudança
E voltaram cada um ao seu trabalho, segurando
A par da charrua, do martelo, da sovela, do lápis, a espada.


Heiner Müller, O Horácio, 1968, tradução de Anabela Mendes

13.6.17

Corpo Estranho

Graças a um convite para participar no 10º número da revista ESC:ALA, em vez do habitual teste de ressonância às paredes, em Abril saí à rua, testei ideias, vi pessoas. E andei a viver esta novidade como se estivesse grávida. E de certa forma estava. Disseram-me que «escrever sobre música é como dançar sobre arquitectura» e eu respondi dando à luz um Corpo Estranho.

Agradeço (mil!) à Mathilde Ferreira Neves o convite e agradeço também às musas Catarina Barros, Luís Miguel Oliveira, Vasco Baptista Marques (e Raquel Nobre Guerra, porque apesar de se ter esquivado ao assédio, foi a pensar nela que idealizei algumas das fotografias) e em especial à Rita Canas Mendes, que se revelou a melhor modelo possível, entrando completamente no espírito da coisa, alinhando em todas as maluqueiras, contribuindo com ideias, expondo-se aos piropos dos camionistas. Só as fotos da Rita sobreviveram à selecção, mas das mais de 1000 que tirei nos últimos meses, muitas serão publicadas nos locais habituais a seu tempo.
Por fim, agradeço ao Eduardo Basto pelo brainstorming, antes-durante-e-depois — ior da man.

Sejam então bem-vindos ao meu Corpo Estranho.

9.6.17

-

O que elas mudam a foto de perfil. 
Em vez de retrato cubista, plexiglass de Lourdes Castro. 
Um contorno transparente.

11.5.17

National Geographic, artigo científico

«The scientists who study citrus love it for its appeal, its mystery, and its drama. “There’s something fascinating, freaky, even sexy about citrus”»



«Out of thousands of wild types, only a few dozen have become commercial behemoths like the navel orange, Eureka lemon, and Mexican lime. They’re the citrus one percent.»

(Eureka lemon! Sou eu! I'm the citrus one percent.)


«The future is likely to bring more types of citrus, not fewer. “Citrus is competitive,” says citrus breeder and geneticist Fred Gmitter (...) “In the near future you’ll see a lot of outside-the-box new stuff.»

(Ok, se tu o dizes.)


The Citrus Family Tree, National Geographic

7.5.17

Era uma vez o Feliz Dia

Como alguns de vocês sabem (and if you don't know, now you know, nigga), a Entidade Empregadora Surrealista que me acolheu com a ambivalência de um namorado duvidoso durante um ano e meio, ao fim do qual me dispensou (claro), ficou a dever-me dinheiro. Vocês querem saber quanto e eu digo-vos: bastante. Desde aí que ando num processo extenuante de envio de e-mails com exigências, qual ex-namorada injustiçada — e, invariavelmente, muito bem sentada, para não sofrer das costas enquanto espero. E então nada. Nem uma resposta.

Depois de uns quantos meses a sentar-me a a levantar-me de sítios, um amigo muito querido chamou o Batman, um tipo misterioso que, durante o dia, vive do gozo sádico de espremer o sumo às entidades empregadoras surrealistas deste planeta e que à noite vê televisão e dorme, como qualquer advogado. Ora, aos olhos da sociedade, quando a ex-namorada reclama os seus direitos, está apenas a ser uma chata do caraças, que só sabe lamuriar-se em vez de seguir com a sua vida, mas quando é o Batman a fazê-lo, é um ganda badass. Pelo que, juntos, legitimados e fortes como o aço, temos engendrado ameaças, intimações e acções em tribunal. E então nada. N-a-d-a. A Entidade Empregadora Surrealista nada teme. A Entidade Empregadora Surrealista não abana. A Entidade Empregadora Surrealista não se abala. É difícil ser ex-namorada — é ainda mais difícil ser macaca para nada.

Um dia, estou eu numa entrevista de emprego, já a assinar os papéis do casamento, e começo a receber chamadas insistentes dos meus pais. Quando posso atender, já intrigada — para não dizer angustiada —, diz-me o meu pai: «Não te vais zangar com a tua mãe, pois não?... É que ela ligou para a Entidade Empregadora Surrealista sem tu saberes e ameaçou chamar as televisões, se não te pagassem. E agora parece que te enviaram um e-mail com uma proposta de pagamento em 12 vezes, para tu aprovares, mas ela queria contar-te tudo antes de o abrires.» O primeiro e-mail da Entidade Empregadora Surrealista. At last! Acções em tribunal do Batman? 'tá-se bem. Ameaças da minha mãe com uma ida às televisões? Vamos já pagar.
A primeira prestação? Já caiu na conta.

Mães = 1000 x Tribunais = 0

Feliz dia da Mãe!

28.4.17

Menina Limão arranja-se para ir a uma reunião com senhor de fato e gravata. Não corre bem.

— Você está… completamente derreada.
— … (?)
— Vai estar bem dentro de duas ou três semanas?
— Sim...
— Eu preciso de si com saúde.
— Mas eu estou bem...
— Está pálida.
— É a minha cor!
— Não, está ainda mais branca do que da última vez.

Ok, eu admito, eu dei na coca antes de ir para lá.

#deixem_os_brancos_em_paz
#nunca_mais_me_arranjo_na_vida

21.4.17

Daniel!

Olha, Millennium Mambo n'A Mulher Que Viveu Duas Vezes.

18.4.17

O que é que te disse sobre fumar, miúda? Dá cá um.

© Alfred Cheney Johnston (1920's? 1930's?)

12.4.17

Heavy pop

Houve poucas coisas tão catárticas como este filho único da música pop. WU LYF, tão bem lembrados pelo meu mano (na última foto), aqui "a dar tudo" no Letterman. Damn, sons.

(E já que vos reencaminho para terreno familiar, fiquem com a última produção dos Irmãos Marques.)

11.4.17

Olá, Cosmos, gostei muito

(Não estás a perceber? Atenta no post anterior.)