9.2.16

Altitude

Ter subido, subido, subido, até ao cume, uma montanha tão alta, a culpa. Sem ser pelo orgulho de subir... Que orgulho? Pode ter sido uma condenação; ou o destino. 
Agora o frio e o silêncio do cume. E ver tudo pequeno e longínquo; e por essa razão, nebuloso, difuso na tristeza ostracizante de um nevoeiro, que de perto, lá em baixo, talvez não exista, que só se vê do alto e de longe, porque são a própria altitude, a própria distância a formá-lo.

Luigi Pirandello, Pena de Viver Assim, trad. Anna Caruso, Biblioteca Editores Independentes

3.2.16

-

Poderás afirmar,
passageiro há muito conhecido,
que o decorrer dos anos te não enganou?
Não reparaste nas zonas extintas
em que passámos, com duas estátuas sereníssimas,
e os casais fingindo-se a dormitar ao sol?
Vê que já não falam, e balançam os braços
como quando davam passeios nos parques, decifrando a
botânica, regressando a casa, demoradamente.
Será simples e calada, assim, a morte, e que
só é ordenado que afaguemos, após Roma, os
cabelos escorridos de nós mesmos, como a nossos pais?
E assim nos amemos nas cidades desfeitas,
arrependidos de não escutarmos
quem nos avisou?

Rui Cóias, Europa, Tinta-da-China

Mensagem

Mensagem para as novas gerações? 
Puta que os pariu!

Luiz Pacheco, Isto só me tem dado chatices - entrevista por João Paulo Cotrim para a revista Ler, 1995, em O Crocodilo Que Voa, Tinta-da-China

1.2.16

Expurgação

Don't let the fuckers get you down
Don't let them take away this song
Don't let the fuckers get you down
Don't let them wonder why you frown

Don't let the fuckers get you down
Or steal the thrill of feeling young
And you can hide away the key
Don't let them take you away from me

We can fight until we're dead
Don't let them walk upon your head
And we can drive away from town
Don't let the fuckers get you down

We can breathe under the sea
You can show me what you see
And we can tell them how it's done
Don't let the fuckers get you down

[Power contra os fuckers.]

O meu patrão é um fixe, não faz nada por dinheiro ♫

31.1.16

Ler

«Tentava ler aleatoriamente, para seu próprio prazer e indulgência, muitos dos livros que esperara anos para poder ler. Mas a sua mente não se deixava levar até onde ele queria. A sua atenção desviava-se das páginas que tinha diante de si e, com frequência cada vez maior, dava por si a olhar fixamente em frente, para o vazio. Era como se, aos poucos, a sua mente se esvaziasse de tudo o que sabia e a força se lhe esvaísse da vontade. Por vezes, sentia-se como uma espécie de vegetal e ansiava por qualquer coisa – nem que fosse a dor – que o trespassasse, que o insuflasse de vida.»

John Williams, Stoner, trad. Tânia Ganho, Dom Quixote

(Uma descrição exacta do mal que me assolou nos últimos anos, e que de vez em quando ainda ameaça.)

30.1.16

Conte d'hiver

– O que é que achas [do meu casaco novo]?
– Ai, que bem, tão Rohmer.

Nunca me decidi tão rápido por uma peça de roupa.

29.1.16

Factotum [título original: Word.]

É verdade que chegou a fazer jornalismo desportivo? 
(...) Tive mesmo umas profissões malucas. Até tinha pensado fazer uma coisa com o Topa-tudo [título original: Factotum], do Bukowski, com isso dos empregos de onde saí. Porque era essa a minha grande alegria: sair dos empregos. Estou aqui a congeminar como é que vou sair do Diário Económico. Não posso ter a obrigação de estar todos os dias à rasca. Não estou para isso!

Luiz Pacheco, Isto só me tem dado chatices - entrevista por João Paulo Cotrim para a revista Ler, 1995, em O Crocodilo Que Voa, Tinta-da-China

28.1.16

9

A Menina Limão faz 9 anos e nem se lembrava, a Menina Limão.

27.1.16

Estudasses

© Menina Limão

16.1.16

Lucy in the sky with coca

11.1.16

Remember the dead, they were so great, some of them ♫

(Há dois anos, este musicão era o meu despertador.)

Quotidianos e outras tragédias, I

© Menina Limão

Auto-retrato em quarto não-meu, com gato não-meu, numa altura em que eu própria, vim a descobrir, não era bem minha.

10.1.16

Excel

Fechada para inventário.

8.1.16

Introvert Freelance



© Introvert Freelance (um tumblr com tão pouco tempo de vida que ainda conseguem ler tudo)

Kalman, Carson, Davis

Em que outras listas de melhores do ano poderíamos encontrar um livro da Maira Kalman? Todos os anos a história repete-se: aguardamos pacientemente pelas escolhas da Alexandra.

'tá?

Segundo a lista que estive a organizar, este ano vou ler 169 livros!

...

6.1.16

Please, please,

(...)

In the evening sun going down
When the earth streams in, in the morning
Send a cage through the post
Make your name like a ghost
Please, please, baby lemonade

I'm screaming, I met you this way
You're nice to me like ice
In the clock they sent through a washing machine
Come around, make it soon, so alone
Please, please, baby lemonade

(...)

1 de Janeiro de 2016

© Menina Limão 
Copenhagen Coffee Lab






















© Menina Limão 
Alcochete

Num trajecto inverso ao destas fotografias, o meu dia acordou chocho e, um pequeno-almoço depois, estava em Alcochete a iluminar-se.
Definitivamente, um bom começo de ano.

(Fotografias tiradas com dois telemóveis diferentes.)

31.12.15

End of year thing

Vi por aí um questionário para balanço dos anos que findam e apropriei-me dele. As respostas estão aí para quem as quiser ler, as perguntas para quem as quiser apanhar. Não cobro nada pelo empréstimo.


1. O que é que fizeste em 2015 que nunca tinhas feito antes?
Perdi um avião, comprei livros na Amazon, abri uma conta bancária, desisti (?) de um curso, iniciei outros online.

2. Cumpriste as resoluções de ano novo, e vais fazer mais no próximo ano?
Só cumpri uma. Vou reciclar as outras para 2016.

3. Alguma das tuas pessoas teve um bebé?
Sim, a M. engravidou. Foi horrível.
O G. teve outro bebé.

4. Alguma das tuas pessoas morreu?
Sim, duas.

5. Que países visitaste?
A Neverland.

6. O que gostavas de ter em 2016 que não tiveste em 2015?
Coragem.

7. Que data de 2015 vai ficar marcada na tua memória, e porquê.
17 de Agosto, o dia em que o mano foi viver para Amesterdão.

8. Qual foi a tua maior conquista do ano?
Ter recuperado a capacidade (e o entusiasmo) pela leitura.
Ter aberto os olhos para a ruindade de uma pessoa.

9. E o maior fracasso?
Todas as coisas que não consegui mudar.

10. Tiveste alguma doença ou ferimento?
Sim, coisa pouca.

11. Qual foi a melhor compra que fizeste?
Magic for Begginers (por tudo o que simbolizou).

12. Houve alguém cujo comportamento mereça ser celebrado?
Sim, celebremos o S. Por todo o apoio inesgotável, por todos os mil incentivos. Por ter decidido mudar de vida e estar a conseguir fazê-lo espectacularmente.

13. Houve alguém cujo comportamento te tenha desiludido?
Sim, e de que maneira.

14. No que gastaste a maior parte do teu dinheiro?
Livros e álcool.
Versão não rock ‘n’ roll da resposta? Renda, contas e comida – como se pudesse ser de outra forma.

15. O que te deixou mesmo, mesmo, mesmo animada?
As amizades. Sobretudo a amizade com a M. Por ser uma nova amizade, por ela ser rapariga (as raparigas fazem-me muita falta, todas as minhas amigas estão longe), por isso ter ajudado a combater um bocadinho a solidão de Lisboa.

16. Que canção de 2015 vais lembrar para sempre?
Small Poppies, Courtney Barnett
The Less I Know The Better, Tame Impala
Something Soon, Car Seat Headrest

17. Em comparação com a mesma altura do ano passado estás:
      a) Mais triste ou mais feliz?
Mais feliz, talvez.
      b) Mais magra ou mais gorda?
Igual.
      c) Mais rica ou mais pobre?
Mais pobre. Lol, I know! Parece impossível.

18. Que coisa gostavas de ter feito mais?
Ido ao cinema;
ido a quizzes;
ouvido e descoberto mais música;
fotografado;
desenhado;
estudado.

19. Que coisa gostavas de ter feito menos?
Suspirado.

20. Como vai ser/foi o teu Natal?
Óptimo, chato, óptimo, chato. Quando é que vamos embora?

21. Com quem passaste mais tempo ao telefone?
Em chamadas? Com os pais e com o mano.

22. Apaixonaste-te em 2015?
Já estava, né?

23. Quantas one-nite-stands?
Isso está mal escrito.

24. Qual foi a série preferida das que viste em 2015?
The West Wing.

25. Há alguém que detestes hoje, e que não detestavas há um ano?
Sim, graças a deus.

26. Qual foi o melhor livro que leste em 2015?
A Vida Sentimental de Nathaniel P., de Adelle Waldman.

27. Qual foi a grande descoberta musical de 2015?
Car Seat Headrest (mas eu, por força das circunstâncias, nunca ouvi tão pouca música).

28. O que é que desejaste e tiveste?
Férias “oficiais”. Estabilidade. Quase todos os meus amigos (sobretudo os que vivem longe) presentes no meu aniversário. Livros, muitos livros.

29. O que é que desejaste e não tiveste?
Olha, uma empregada. Ok, paz interior. :D

30. Qual foi o filme que mais gostaste dos que viste em 2015?
As Mil e Uma Noites, do Miguel Gomes. Não vi quase nada, mas é possível que a resposta não se alterasse.

31. O que é que fizeste no teu aniversário, e quantos anos fizeste?
Fiz trinta anos. Acordei em Sesimbra, num quarto com vista para o mar. Almocei uma mariscada, fiz a roda na praia. Depois, voltei para Lisboa, onde jantei com um grupo de amigos. O mano também veio, assim como a J., a minha melhor amiga na infância, que eu não via desde os 10 anos (há 19, portanto) e que eu reencontrei por acaso em 2015, graças ao facebook. No final do jantar, fomos a um bar. A noite acabou em minha casa, com os resistentes.

32. Diz uma coisa que teria feito o teu ano muito melhor.
Err... Dinheiro, pronto.

33. Como é que descreverias o teu estilo (roupa, etc) de 2015?
Estilo? Estilo «o que estiver lavado» + «o que ainda não estiver completamente roto passados dez anos».

34. O que é que te manteve sã?
Nunca pensei dizer isto, mas: o trabalho. E as minhas pessoas.

35. De que figura pública/celebridade gostaste mais este ano?
Err...

36. Que questão política mexeu mais contigo?
Foi um ano muito concorrido. O acordo à esquerda e a queda do governo, provavelmente.

37. De quem tiveste mais saudades?
Do mano, né.

38. Quem é a melhor pessoa que conheceste este ano?
A M. Também só conheci essa. (Ehehehe, estou a brincar. A M. é espectacular.)

39. Uma boa lição de vida que 2015 deu.
Aprendi que a gota de água pode ser isso mesmo: uma gota.

40. Um verso de uma canção que seja um bom resumo de 2015.
Difícil é escolher. Mas pode ser esta:

Heavy boots on my throat, I need 
I need somethin soon, I need somethin soon 
I can't talk to my folks, I need 
I need somethin soon, I need somethin soon 
All of my fingers are froze, I need 
I need somethin soon, I need somethin soon 
Only one change of clothes, I need 
I need somethin soon, I need somethin soon 
my head is my head is my head is

(Car Seat Headrest, Something Soon)

Top-notch

Ah! A Vida Sentimental de Nathaniel P. num top. Excelentes escolhas, o melhor conjunto até agora.

Jornalismo, Portugal

Este ano referi-me ao Ípsilon como "o suplemento musical do Público", sem me alongar em explicações. Hoje, o Mário Moura, como de costume, resume tudo direitinho.
(Acrescentaria só "cinema", a par da literatura, e só depois as restantes manifestações artísticas.)

«Neste fim de ano, acumulam-se os fechos e despedimentos nos jornais. O Sol e o i fundem-se e despedem (o modo como isto foi feito impressiona pela arrogância descarada). O Público despede um monte de gente. Das reflexões que fui lendo (Vítor Belanciano ou Alexandra Lucas Coelho), falta falar dos problemas internos do jornalismo em Portugal. Fala-se de como reagir à internet (Belanciano) ou de como arranjar dinheiro (Lucas Coelho), junto de patrocinadores, novos ou velhos, e junto dos leitores. Defende-se o jornalismo como algo de interesse público.

Eu assino o Público e o Expresso, e é-me bastante penoso lê-los. A cobertura noticiosa nacional e o comentário político ainda são relativamente decentes. Preferíveis à televisão em geral. Do lado da cultura, é uma desgraça. Nunca houve tanta gente a trabalhar em arte, design, arquitectura, escrita ou música em Portugal, mas a cobertura é mínima e pouquíssimo arriscada. Perde-se tempo a apresentar traduções requentadas do que se passa lá fora. Mandam-se jornalistas cobrir o que já é coberto por toda a gente. Fazem-se peças de fundo sobre assuntos e pessoas batidos. O ípsilon é um jornal de música, depois de literatura e finalmente de arte, teatro, e muito pouca arquitectura e design. Os trilhos por onde anda são estafadíssimos. E o modo como trata os assuntos, idem. O expresso ainda consegue ser mais fraco.

A reacção mais comum de um leitor perante isto é dizer-se que não há crítica em Portugal.

É verdade que com pouco dinheiro não se consegue fazer grande cobertura, etc. Mas se não se arrisca também não se faz mais do que sobreviver à espera do fim.

Como leitor, assinante, espectador, assisto a uma imprensa que não me representa os interesses e que, quando confrontada com essa queixa recorrente, me diz que eu é que me deveria interessar no que fazem. Eu, como muitos leitores, leio o New York Times, o Guardian, a New Yorker e ainda mais coisas. Sei o que de melhor se faz no mundo. O que falta nisso é a cobertura do que se faz aqui mesmo e, lamento, os jornais não o estão a conseguir fazer. A sensação que fica é que nem sequer lhes interessa por aí além.»
- Mário Moura, no facebook

30.12.15

Her

I had been told about her.
How she would always, always.
How she would never, never.
I'd watched and listened
but I still fell for her,
how she always, always.
How she never, never.

In the small brave night,
her lips, butterfly moments.
I tried to catch her and she laughed
a loud laugh that cracked me in two,
but then I had been told about her,
how she would always, always.
How she would never, never.

We two listened to the wind.
We two galloped a pace.
We two, up and away, away, away.
And now she's gone,
like she said she would go.
But then I had been told about her -
how she would always, always.

Jackie Kay, Her, em Life Mask (Bloodaxe, 2005)

The new novel

Winslow Homer, The New Novel (1877)

29.12.15

E o vencedor do Cabaz Menino Jesus 2015 é...

...a nossa amiga BD.

1. A tesourinha simboliza um corte de cabelo com um "top stylist" na Facto.
2. A tirinha metálica no canto superior direito foi o que sobrou de um saco de gomas.
3. Os rebuçados são da Papabubble (e trazem-me recordações de Erasmus).
4. O bilhete é para o Romeu e Julieta, pela CNB.
5. A caixa Odisseias traz duas noites com pequeno-almoço para duas almas, somewhere not here.
6. Os títulos dos livros estão suficientemente legíveis, à excepção do Sleepwalk: and other stories, do Adrian Tomine.
7. A botija de água quente... não vamos comentar.
8. O meu irmão já voltou para Amesterdão, caso contrário tinha-o obrigado a encaixar-se no espacinho que falta. Melhor prenda deste Natal.