21.10.14

O direito ao desmoronamento não assistido

Da mesma forma que certos filmes nos põem a falar, ou até a gritar, com as suas personagens, também o acaso nos torna espectadores da vida de indivíduos que nos inspiram os mesmos cuidados, obrigando-nos a restringir estes pensamentos a surdas recomendações, como se também delas nos separasse um ecrã, a película invisível do decoro, do respeito pela privacidade, do direito ao desmoronamento não assistido.

20.10.14

Mendel

O terrível cometa de sangue

«Não, não era a mesma pessoa, já não era o Miraculum mundi, o arquivo mágico de todos os livros; todos aqueles que o viram na altura, relatavam, nostálgicos, o mesmo. Algo no seu olhar, outrora tranquilo, parecendo apenas sonolento na forma como lia, aparentava estar irremediavelmente destruído; algo estava reduzido a escombros: o terrível cometa de sangue, na sua corrida rasante, deve ter embatido de forma retumbante também naquela isolada, pacífica e alciónica estrela do seu mundo de livros. Os seus olhos, habituados durante décadas às delicadas e silenciosas letras do tamanho de patinhas de insectos devem ter visto coisas medonhas naquele curral de seres humanos cercado com arame farpado, pois as pálpebras caíam pesadas ensombrando as pupilas que outrora brilhavam de maneira tão ágil e irónica, sonolentos e com olheiras avermelhadas, os olhos, outrora tão vivos, dormitavam debaixo dos óculos reparados e atados a muito custo com um fio fino. E ainda mais terrível: No edifício fantástico da sua memória deve um pilar qualquer ter-se desmoronado, desorganizando toda a estrutura; pois o nosso cérebro, este mecanismo de comando moldado a partir da mais subtil das substâncias, este instrumento de precisão harmonizado com o nosso saber, é tão delicado que uma artéria obstruída, um nervo afetado, uma célula fatigada, que uma molécula deslocada é suficiente para fazer emudecer a harmonia mais esplendidamente abrangente e esférica de uma mente. E na memória de Mendel, deste teclado único do saber, aquando do seu regresso, as teclas bloquearam. Quando de vez em quando alguém vinha pedir uma informação, ficava a olhar para ele esgotado e não compreendia muito bem, entendia mal e esquecia o que lhe diziam – Mendel já não era Mendel, tal como o mundo já não era o mundo. A absorção total já não o baloiçava durante a leitura para cima e para baixo, mas sim na maior parte das vezes ficava sentado paralisado, com os óculos debruçados apenas mecanicamente sobre o livro, sem se saber se lia ou apenas dormitava. Muitas vezes, assim contava a senhora Sporschil, a cabeça, pesada, caía-se-lhe sobre o livro e adormecia em plena luz, por vezes fitava de novo, horas a fio, a estranha e fétida luz da lâmpada de acetileno, que lhe fora colocada na mesa naqueles tempos de escassez do carvão. Não, Mendel já não era Mendel, já não, um milagre do mundo, mas sim um fardo inútil de barba e roupa, que respirava com dificuldade, depositado sem sentido sobre a cadeira outrora pítica, já não, a honra do Café Gluck, mas sim uma vergonha, uma mancha suja, malcheiroso, desagradável à vista, um parasita incómodo e inútil.»

Mendel dos Livros, de Stefan Zweig, tradução de Álvaro Gonçalves, Assírio e Alvim

17.10.14

Oh, I could love you


Won't you fall?

Since I started pouring easy
Things have all fell in line
I will never figure it out
Didn't they come in time?
Oh, I could find you
Oh, then you'd be easy

15.10.14

Dear life

Está no ar o meu terceiro texto para o Despesa Diária.

14.10.14

Diário, I

Abri o livro e fechei-o logo a seguir. Como eu gosto desta narrativa; não sei quem seria se não pudesse ser esta pessoa que não consegue. Imagina se eu deixasse de pensar para poder ler e me obrigasse a pensar para poder escrever. Não era a mesma coisa.

Passo rápido

«E ele próprio tinha tendência para a depressão. Ele vinha de uma família de doenças mentais e alcoolismo. E ele disse: "a depressão nunca persegue alguém com um passo rápido". Era uma forma bonita de dizer, no século XIX, que podemos ser mais rápidos que os nossos demónios.»

Ken Burns sobre Teddy Roosevelt no Daily Show

12.10.14

Niggas try to be the king but the ace is back

Imunologia

Eu escrevi "outra" e o telemóvel corrigiu para "puta". I rest my case.

8.10.14

Baby steps

Estamos sempre à espera de ter a vida em ordem para pôr alguma ordem na vida, esquecendo que é cumprindo os pequenos gestos que se vai restituindo o equilíbrio.

6.10.14

Damn good coffee

Diane, 22:37. We meet again.

Since you asked

Estúpida mente bem.

Chrysanthemum segetum

E como quem não quer a coisa, voltou.

2.10.14

Súmula

23.9.14

Despesa Diária

Cansada da decadência dos costumes, é com o entusiasmo de quem retoma uma actividade preciosa que vos convido a ler o super-blogue (como quem invoca o conceito de super-banda) Despesa Diária, onde escrevem duas das pessoas que mais adoro na vida (Gouveia, E. [o artista anteriormente conhecido pelo enorme Agrafo]), uma lady de que nunca ouvira falar e que tem sido uma agradável surpresa (S. White), uma pessoa de quem tenho muitas saudades (João Gaspar) e outra que raramente percebo (Peor). Há mais almas de bem (algumas já partiram, outras ameaçam chegar – estão sempre a entrar pessoas novas) e cada uma tem um dia para escrever.

Hoje, foi a minha vez de entrar. Estou felicíssima, independentemente.
Daqui a 6 meses, sou capaz de acreditar que voltei a escrever. Enquanto não acredito, deixo-vos o link para o meu primeiro texto.

Bom ambiente de trabalho



Foi assim, pegar no batente no dia seguinte. Estou condenada a ter os colegas mais fixes do mundo.

18.9.14

FLANZINE #5 - CAMA



Bom dia, sodomia!

Amanhã há festa.

Estão convidados a comparecer, cheios de entusiasmo, no lançamento do número 5 da FLANZINE, a fanzine mais gostosa, na qual participo com uma fotografia. Cada número da FLANZINE tem um tema (o desta é CAMA) e tem funcionado em regime de colaboração, que é como quem diz, por pares: um flanzineiro escreve e o outro cria a imagem (ilustração, fotografia, etc).

Colaboram neste número: Emanuel Amorim (o meu par), Afonso Cruz, Ana Deus, Ana Tecedeiro, Rui Silva, Inês Fonseca Santos, Alex Gozblau, Artur Escarlate, João Pedro Azul, Luís Quintais, Joana Linda, Tânia Cadima, Manuel Jorge Marmelo, João Paulo Cotrim, Raquel Nobre Guerra, and so on, and so on.

O design é da Filipa Campos.

O Pacheco Pereira já tem. E recomenda.

SEXTA 19 Set
n'O Bom o Mau e o Vilão (bar na Rua do Alecrim, mesmo ao lado da Pensão Amor; Lisboa)
19h30
Uma oportunidade como outra qualquer para beber copos

(Obrigada ao João Pedro Azul, ao Emanuel Amorim e, em especial, à querida Filipa Castro.)

17.8.14

Lauren Bacall (1924–2014)

3.8.14

Dlim dlão

© David Mazzucchelli, Asterios Polyp

Merdinha, merdona
Caixotinha, caixotão
Fita cola, fita nela
Vai de vela, vamos nela
À boleia do caixão

15.7.14

Mudanças

25.6.14

The last one standing

© Elliott Erwitt 

Eli Wallach (1915–2014)

16.6.14

Vertigo



Cada vez mais adepta do que se fffffff (golooooo!), voltei a postar.

11.6.14

These fucking walls

© John Moore

5.5.14

Grand Oporto Limona



Parabéns, Limona!
Obrigada, Wes.

24.3.14

Março

© Moonassi 

Era sempre o mês com mais problemas, disseram as auxiliares. Não se sabe porquê, as pessoas metiam na cabeça morrer em Março, depois de terem sustido todos os ataques do Inverno.

Alice Munro, Amada Vida (conto Amundsen), tradução de José Miguel Silva, Relógio D'Água.