A minha decisão de adiar o balanço de 2007 até ver todos os filmes desse ano em exibição foi acertada. Preparava-me para eleger
Paranoid Park para filme do ano, mas depois vi
Luzes no Crepúsculo. Percebo a eventual admiração por duas nomeações tão díspares.
Paranoid Park revela um Gus Van Sant genial na gestão daquilo que quer dizer sem o dizer, na experimentação de figuras possíveis e impossíveis sem nunca nos desgastar as pupilas, disparando um argumento simples em várias direcções. Muitas camadas.
Luzes no Crepúsculo, de Aki Kaurismäki, é uma escolha muito minha. O trailer fizera-me supor uma história totalmente diferente e afinal o que ali interessa é Koistinen, a pessoa mais triste do mundo. É também a mais apática, uma que a cruzar-se connosco nos irritaria e na qual desejaríamos descarregar a bênção de três pares de estalos. Então de onde vem o fascínio? Assombrando-me esta foto da Aino Kannisto como me assombra, e a tempo inteiro, Koistinen, Luzes no Crepúsculo, é aos meus olhos Aino-Kannisto-versão-masculina. É como se Aki Kaurismäki tivesse feito um ensaio contínuo da perturbação que se instalou nos rostos Kannisto (sim, há um rosto Kannisto e não é por se tratarem de auto-retratos). Serem ambos finlandeses talvez não passe de coincidência, da qual só me apercebi mais tarde.
Mas Luzes no Crepúsculo não se resume ao ensaio de uma tristeza estampada num rosto, de um torpor a dominar os gestos, de um total desencanto e inabilidade para o encanto. Se o fizesse, o Crepúsculo dispensaria as Luzes. O filme é todo esse ensaio durante duas horas, embora nos tente enganar com o enredo criminoso, mas há as luzes, não podemos esquecer-nos das luzes, porque há sinais ao longo do tempo que piscam o olho aos atentos e no fim há um corpo quase morto a esvair-se em sangue e nós que o vimos quase morto mas saudável todo o tempo pensamos que irá desistir com toda a naturalidade de quem fez da desistência uma tatuagem. Mas não, a mão dela estende-se à dele e esta recebe-a, não se fecha, antes abre-se, desabrocha e ouve-se da boca dele uma promessa. E desengane-se quem ousa ver um final feliz numa capitulação sem lugar para tamanha mentira: o que interessa é o peito que se abre uma outra vez depois de repetidamente repisado e esmagado até à morte.
Estranho este papel incontornável do amor: a capacidade para arruinar e para salvar da própria ruína a que antes condenara.
O amor escraviza, mas é a única libertação.
Caetano Veloso

Aino Kannisto


Luzes no Crepúsculo
Luzes no Crepúsculo
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