
© Maria Flores
Hoje é o dia de todas as desistências. Prostrar os braços, curvar a espinha e decretar: não mais te emprestarei o corpo. A massa sanguínea coagulou impiedosamente do lado esquerdo. Gangrenou a carne, apodreceu, caiu, esparramou-se no chão. Uma metade inválida invalida a outra.
Antes queria que me comesses de vez. Do teu veneno injectado a compasso germina loucura. Deixemo-nos de merdas: tenho um tumor no cérebro que cresce com o teu esperma.
Come-me de vez ou mastiga e cospe – sentencia e salva-me. Assim, preto no branco: cuspi-te. Sou uma nítida mancha desfocada em qualquer objectiva. Assim, cinzenta. Por isso inventemos uma nova despedida, uma que funcione. Come-me de uma vez. Com perfeição e eficazmente. Mereço uma morte mais digna.
