2008 a rodopiar nos braços do mundo.
Entrarei em 2008 com o corpo em desequilíbrio, ou, quem sabe, com o corpo em equilíbrio com outro. Entrarei em 2008 da única forma que interessa entrar: a dançar. 2008 a rodopiar nos braços alheios. Não contarei os segundos (para quê?). Não beberei champanhe, nem fará falta. Os bens essenciais são as sabrinas e a saia rodada. E os sorrisos muitos.

Fotos que se encontram nos myspaces alheios: moi & Pedro Bastos a dançar na ESMAE, Porto.
Este ano, a transição de um número para outro dá-se em Coimbra, no Centro Norton de Matos. A época abriu oficialmente dia 28, com um baile. Ontem, 29, já houve workshops durante o dia e baile à noite. A minha festa começa hoje.
vá, odeiem-me à vontade.
Link me! #2

A vida blogosférica é demasiado estratégica para ser levada a sério. É toda uma gestão de relações planeadas a dedo, a clique (e vai mais aquele linquezito e vai mais aquele e-mail). Há que ir preparando o terreno, as cartas passadas debaixo da mesa enquanto se serve o menu visível aos olhos de todos.
Pessoas há que se esquecem de ter bons blogues, porque o que interessa é fazer mais um link estratégico em novo post. Com as repercussões das ligações, chega uma certa, como dizer?, total ilusão de grandeza.
A vida que interessa está numa outra esfera que não a blogó. Mas fora dela somos pequenos, insignificantes. Ninguém sabe o nosso nome (ninguém quer saber) e ninguém nos lambe as botas. Ninguém nos elogia. Ninguém nos convida para sair. Ninguém diz que somos bonitos. Ninguém nos fode.
Ah pá, aqui é que se está bem. Deixa cá ver se o outro já me linkou.
isto é o que hoje é*
(é por estas e por outras que eu gosto tanto do jóni gásper)
*não é por acaso que este é um dos melhores versos com que se pode nomear um blog.
Pretérito Perfeito.

É já a segunda vez que o cinema nos oferece uma cena perfeita ao som de Elliott Smith. Primeiro foi Wes Anderson em The Royal Tenenbaums: Needle In The Hay, um requiem para um suicídio. Agora, é Gus Van Sant em Paranoid Park. Ambas as cenas são belíssimas. Ambas são amargas. Elliott Smith não está ali por acaso. as mesmas cenas seriam outras sem ele.
Sabemos do gosto de Gus Van Sant por realizações arriscadas e até controversas, como foi no caso de Elephant. Em Paranoid Park, acontece o mesmo. Não tenho memória de ver no cinema realização tão saltitante entre técnicas e experimentação de efeitos, como o (ab)uso de ralentis. Impressiona o facto de nunca acharmos que há algo a mais, que algo está fora do lugar, que algo fica por dizer, que algo se esconde atrás de tanto aparente artificialismo. Deve ser isto que faz um mestre, alguém que arrisca o óbvio para obter o que não é óbvio: uma poesia visual a fazer brotar a poesia entrevista nos silêncios do papel.
P.S. Afinal, está complicado escolher o meu filme do ano. E ainda me falta ver Eastern Promises e Estrela Solitária.
nós compreendemos, mas não aceitamos.
o meu Deus tem os olhos em bico

Mas claro que admitirei com toda a frontalidade a minha primeira desilusão em toda a obra do Senhor, se esta se confirmar.
cinema em três tempos
Ainda não vi Paranoid Park, do Gus Van Sant, por isso ainda não vi a curta-metragem Porca Miséria, dos portugueses Joaquim Pinto e Nuno Leonel, que está a ser exibida juntamente com a longa-metragem. Mas vi O Sabor da Melancia, de Tsai Ming-Liang, o que significa que pude ver a curta-metragem China China, do João Pedro Rodrigues e do João Rui Guerra da Mata. Se a exibição de curtas portuguesas a precederem filmes estrangeiros for uma iniciativa a ter continuidade, então há que dar os parabéns aos responsáveis pela mesma.
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China China é uma das melhores curtas-metragens portuguesas que já vi. Não vi muitas, mas não tenho qualquer pudor em reafirmar a minha convicção de que o cinema português é quase sempre medíocre. Para fazer justiça a China China não basta, no entanto, dizer que é uma das melhores – na verdade, é realmente boa. Trata-se de um argumento simples e potencialmente desinteressante, mas transposto para o ecrã com tamanha sensibilidade e acutilância, que a realização o transforma num objecto com o tom certo, entre a tristeza, o sorriso nos lábios e a ironia. A beleza é culpa do trabalho fotográfico. E tanto assim é que se convertêssemos os frames em fotografias independentes, a maior parte singraria nesse estatuto, e com qualidade. Destaco o frame em que o espelho exibe o que a chinesa escreveu a baton, com todo o cenário reflectido desfocado, incluindo o seu corpo prostrado.
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Quanto a O Sabor da Melancia, é bom saber que Tsai Ming-Liang sabe fazer cinema. É que o seu Adeus, Dragon Inn, visto em 2006, não é um filme. Chamem-lhe o que quiserem, menos Cinema. A única certeza é de não passa de uma pretensiosa e secante peça, sem qualquer história. Vinte minutos* à espera que uma mulher percorra os 50 metros da sala de cinema da qual faz a manutenção, não são mais do que vinte minutos de desespero pela espera de uma mulher que percorre 50 metros de uma sala de cinema. E quando acaba a cena da mulher a sair da sala de cinema, segue-se a cena da mulher a percorrer o corredor. Mais quantos minutos? You get the picture.
O Sabor da Melancia equilibra-se bem entre uma ode à melancia num período de seca e momentos musicais kitsch. Dizem que Tsai Ming-Liang ainda acredita no amor. A julgar pela amostra estranha, crua, triste, eufórica, desbragada, asfixiante e, por vezes, dolorosamente bela, eu diria que sim. Resta acrescentar que a estranha cena que dá origem ao cartaz é fortíssima. Uma prova de que, afinal, ali há génio.
*vinte minutos é capaz de ser exagero, mas serve como ilustração das marcas deixadas.
update

No outro dia chamaram-me cabra. Respondi com um sorriso.
depois

No outro dia chamaram-me cabra. Respondi com um sorriso.
(some things never change)
With all due respect, sir...
Arriscando-me a ser acusada de histerismo, reitero: dois dos membros desta grande banda, o Chriss Sutherland e o Micah Blue Smaldone, estarão hoje, amanhã e depois de amanhã em concerto no Porto, em Aveiro e em Lisboa, respectivamente. É ler o post abaixo. Já me calei.
Chriss Sutherland, que deu o meu concerto mais-que-tudo entre todas as muitas dezenas de concertos que vi ao longo de um ano e tal no Mercado Negro, Chriss Sutherland, que é um talentoso músico folk que nos chega dos EUA pela segunda vez, vem dar três concertos: um no Porto, hoje, outro em Aveiro, amanhã e outro no sábado, em Lisboa. E mais: não vem só o Chriss Sutherland. Vem também o Micah Blue Smaldone, que é simplesmente uma das revelações do ano que mais esperanças traz a este coraçãozinho sedento de boa música. O Micah Blue Smaldone é o responsável por uma das músicas folk mais lindas e contagiantes à face e às profundezas da Terra. E vêm os dois em dose tripla. Isn't life do camandro?
E mais ainda: os dois são membros dos Fire On Fire, que hão-de dar muito que falar de tão fantásticos. Ouçam cada música do myspace e viciem-se. Acabaram de lançar um EP maravilhoso.
Resumindo: hoje, às 21h, na Casa Viva, na praça Marquês de Pombal, onde parece que é preciso bater à porta para entrar, vai haver um concerto de ir aos céus, com dois dos músicos folk mais talentosos e prometedores do universo musical. A entrada é livre, meus caros!
O último a chegar é um grande totó.
Os aveirenses vão melhor servidos: os dois tocam amanhã, dia 7, no Mercado Negro, pelas 22h. Pagam-se uns míseros 4 euros, mas o espaço é muito mais propício a duas actuações com certeza memoráveis.
Os lisboetas não ficarão a chuchar no dedo: poderão vê-los na ZDB, dia 8, sábado, pelas 23h.
www.myspace.com/chrisssutherland
www.myspace.com/micahbluesmaldone
http://www.myspace.com/fireonfiremusic
http://www.myspace.com/mercadonegro_aveiro
Amiina vs Au Revoir Simone.
Amiina, Casa da Música, 4 Out 07
Fiquei radiante por este video existir. Captou um momento de brilhantismo do concerto, o segundo melhor. É pena que este seja o único registo disponível, tinha alguma esperança de que alguém tivesse gravado o momento em que as meninas pareceram tocar uma espécie de sinos (?) pressionados com a ponta dos dedos.
Au Revoir Simone @ Theatro Circo

A força das Au Revoir Simone é também a sua fraqueza. Gostamos da harmonia dos teclados, das vozes suaves niveladas em coro, das melodias pop perfeitas. São 3 cabelos longos-lindos, 3 vestidos curtos, a revestir as pernas 3 collants a terminar em 3 pares de sapatinhos. As Au Revoir Simone são bonecas. O problema das bonecas é serem impecáveis. O problema destas bonecas é a ausência de sujidade. A ausência de perversidade. As meias não exibem buracos, os vestidos não levantam o suficiente para lhes vislumbrarmos as intimidades, os cabelos agem impecavelmente sem agir, prostrando-se sobre os ombros, roçando nas cintas. Nem um cabelo fora do lugar. As músicas acabam tal como começam: sem dor, sem rasganços, sem espetos, sem espinhos, sem atropelos, sem cuspo a crescer nos dentes, sem contorções no peito, sem contorções nos músculos, sem pressões descontroladas no teclado, sem gritos, sem gemidos. Os anjos não têm qualquer interesse. Os anjos são simples. A complexidade chega-lhes com a sujidade. Os anjos querem-se sujos. Querem-se caídos. Querem-se cravando as unhas em tudo o que se lhes cruza durante a queda. Às bonecas, sempre gostámos de lhes cortar o cabelo, sempre gostámos de lhes pintar as sobrancelhas de azul, sempre gostámos de lhes arrancar as pestanas. Está-nos no sangue a corrupção. As bonecas que não se deixam corromper acabam no lixo. Sempre tive apenas uma Barbie – fiquei-lhe com a cabeça, o cabelo navalhado e espesso.
p.s.: não saí defraudada nem desiludida, esperava exactamente aquilo que não vi e que não senti.
p.s.s.: posto isto, não entendo o fascínio do senhor das obscuridades, o senhor Lynch, por meninas tão limpinhas. Estará o homem a amolecer?
p.s.s.s.: a miúda da direita é uma destrambelhada que até a mim me envergonhou. Eu fico sempre envergonhada quando um artista abre a boca entre músicas para não ser eloquente. Escondo o rosto nas mãos. Preferia que se limitasse a tocar música. É muito difícil demonstrar inteligência em palco. Frases feitas e lugares comuns e elogios ao público e ao país são deprimentes e irritantes. É também irritante a facilidade com que o público ainda vibra com esses discursos batidos, a facilidade com que os compra.
corpos mutantes
Outras coisas há que não se esperam. Que, por exemplo, ao fim de várias horas ao balanço de boa música retro, irrompa Metric por ali fora, em coordenadas desbragadas. É que, reparem, o corpo já não esperava enlouquecer. E depois de desvairado, não há retorno. Há que pedir “don’t give up”, The Noisettes, que fará surgir largos loucos livres desenhos de ar sob luz intermitente.
Os corpos noturnos encadeiam entre si mensagens a velocidades letais. É preciso prepararmo-nos para derreter/evaporar/vestir o chão/vestir as paredes/destilar/violentar. A corrupção dos corpos é uma ordem.
os três começos de livros mais geniais que conheço.
Nijinski, Cadernos, Assírio e Alvim
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– Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro…Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida…compreende?...a nossa vida, a vida inteira, está ali como…como um acontecimento excessivo… Tem de se arrumar muito depressa.
Herberto Helder, Os Passos em Volta, Assírio e Alvim
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Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li.Ta.
Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.
Teve uma precursora? Teve, sim, teve. Na verdade, talvez até não houvesse Lolita nenhuma se, certo Verão, eu não tivesse amado uma rapariga-menina inicial. Num principado junto ao mar. Oh, quando? Quase tantos anos antes de Lolita nascer quantos eu contava nesse Verão. É sempre de esperar num assassino uma prosa de estilo caprichoso.
Senhoras e senhores do júri, a prova número um é o que os serafins, os simples, mal informados e nobremente alados serafins, cobiçaram. Reparai neste emaranhado de espinhos.
Vladimir Nabokov, Lolita, Colecção Mil Folhas, Público



















