
Por aqui, não sei se a brisa me incomoda ou convém. No calor das quatro paredes, os corpos alheios ocupam-se e não pensam.
Da distância que me separa do muro que rodeia a casa, há sobretudo flores. Podia falar delas, mas não me emocionam.
Lá dentro não se respira bem. Também não se respira melhor cá fora. Algures noutro canto do mundo, o meu amor embala as suas tormentas no regaço de outra mulher. É tão fácil enredarmo-nos nas mentiras que tecemos, um sorriso logo ali tão fácil de colher. Olha, amor, o calor de outra mulher. Faz-nos tão bem. Creio que já nem o frio nos discerne como dois – somos uma só tristeza a apagar-se no escuro.
(escrevo com a faca junto ao peito, se inspiro demasiado expiro demasiado e espeta-me, devo escrever de um fôlego)
Eu não estou capaz. Não estou capaz de emprestar-me. Sei como parecem reconfortantes os empréstimos à falta de entregas. Quando te deitas, quantas pessoas levas para a cama?
Deves distrair-te do nosso amor doentio. A doença consome-me devagarinho e nunca me mata totalmente. Uma pessoa tem que ficar por aqui a sobreviver aos caídos. A minha ocupação diária: sobreviver.
Cheira a podre. O nosso amor cheira a podre. Amor, vês o meu braço? Já não tem carne, o tempo comeu-a. Esse monstro escrito continuamente a cinzas.
Amar-te é uma ocupação mortífera. Mataste-me. Agora que estou morta, escrevo.
As mortes dão frutos.










































