I’ve been so happy being unhappy with you

Era uma vez as Terças-Feiras.
Num certo bar Clandestino, em Aveiro, entre as 22h e as 2h/3h, as Terças escrevem-se com letra maiúscula. O Pedro criou-as há três/quatro anos atrás (começaram por ser Domingos) e durante um ano e qualquer coisa, eu acompanhei-o nessas noites de chuva doce nomeadas Bitter Sweet Songs. A certa altura, a minha presença tornou-se intermitente, com um período de vivência no estrangeiro pelo meio. Até que me foram concedidas as minhas próprias noites, umas segundas-feiras mais próximas do registo agridoce e umas quartas em registo acelerado. Ao fim de dois anos e meio, tudo isso acabou. mas só para mim - as Terças continuam dele.
Na contagem decrescente para o desfecho deste capítulo que vai afastar-me de Aveiro, o Pedro (sim, está vivo - isto de sermos poucos a sabê-lo vai acabar em breve) convidou-me para uma última sessão das nossas tão nossas Bitter Sweet Songs, ritual de punhaladas no peito e doçuras sussurradas.
Era uma vez as Bitter Sweet Songs, ou talvez devesse dizer ‘um terrivelmente belo desfile de fantasmas’.
01. Komred – A L’Anée Prochaine
02. Minuit Guibolles – Jour De Pluie
03. At-Tambur – Chotiça Swingada
04. Beirut – Postcards From Italy
05. Buckaneers – Cold Morning
06. Melanie Safka – Some Say (I Got Devil)
07. Tunng – Tale From Black
08. Townes Van Zandt & Willie Nelson – Marie
09. Bowerbirds – In Our Talons
10. Mojave 3 – Bill Oddity
11. Broken Social Scene – Anthems For A Seventeen Year-Old Girl
12. Au Revoir Simone – Stay Golden
13. Azure Ray – Sleep
14. Joseph Arthur – A Smile That Explodes
15. The Cinematic Orchestra – To Build A Home
16. Electrelane – Cut And Run
17. José González – Crosses
18. Broadcast – Tears In The Typing Pool
19. Aroah – Katheryne Says
20. Neko Case – Deep Red Bells
21. Joanna Newsom – Colleen
22. Kaki King – Night After Sidewalk
23. Warsaw Village Band – Mayków
24. Iowa Super Soccer – Morning
25. The National – Fake Empire
26. Max Avery Lichtenstein – Tarnation
27. Rachel’s – Water From The Same Source
28. Lisa Germano – Trouble
29. Diane Cluck – Easy To Be Around
30. Sophie Zeyc – You Could Have Run Away
31. Minus Story – Open Your Eyes
32. Honeymoon Is Over – Jarntorget
33. Honey Is Cool – Then He Kissed Me
34. Arcade Fire – Headlights Look Like Diamonds
35. Voxtrot – Every Day
36. Sufjan Stevens – The Predatory Wasp Of The Palisades Is...
37. Neutral Milk Hotel – King Of Carrot Flowers Pt. 1
38. Elliott Smith – Coming Up Roses
39. Cat Power – Speak For Me
40. Tom Waits – Sea Of Love
41. Marlango – I Suggest
42. Jens Lekman – Higher Power
43. Final Fantasy – This Is The Dream Of Win & Régine
44. Beirut – Scenic World (Lon Gisland Version)
45. Cold War Kids – Hospital Beds
46. Patrick Wolf – Teignmouth
47. Metric – Soft Rock Star
48. Scout Niblett – Wet Road
49. Nina Nastasia – Underground
50. Grant Lee Buffalo – Stars n’ Stripes
51. Woven Hand – Cripplegate (Standing On Glass)
52. Melanie Safka – Stop I Don’t Want To
53. OP8 – Lost In Space
54. Devics – Connected By A String
55. CocoRosie – Horse Porno
56. Moondog Jr – Jintro & The Great Luna
57. Shannon Wright – Everybody’s Got Their Own Play
58. L’Altra – Soft Connection
59. Electrelane – To The East
E para terminar, escolhida por nós, para nós:
60. Broken Social Scene – Lover’s Spit
(Bitter Sweet Songs é também um dos blogs do Pedro, onde ele discorre sobre cada uma das músicas com que nos enfeitiça do outro lado)

443
(…) como eu já disse, a escrita é uma escribatura. Encerra quem a pratica numa prisão transparente.
Ana Hatherly, 463 Tisanas, Quimera
[para a MTC.
e para mim, porque eu queria falar-vos de uma despedida muito especial a ocorrer esta noite, a partir das 22h, num certo bar Clandestino, mas hoje não consigo escrever.]
i'm a stranger in my own house

Apetece-me queimar o meu quarto. Aquele que fica na casa dos meus pais e que deixei inalterado desde que parti para outra cidade. As mesmas fotografias nas paredes (quem sabe algumas daquelas pessoas não estarão já mortas, nunca mais as vi), os mesmos livros, os mesmos cds, a mesma quinquilharia, a mesma roupa nas gavetas. Não me reconheço em nada do que o povoa. Já nada daquilo me pertence. Não sei como impingir ao meu velho quarto a bagagem de anos vividos fora. Não dá para meter tudo o que é velho no lixo. A começar pela mobília. Esta sempre foi a minha casa, mas eu não me sinto em casa. Não dá para misturar as tralhas, sou outra pessoa. Não basta arrancar as fotografias velhas e colocar as novas. Mudei demasiado para fazer do trespasse uma mera substituição.
Paredes de Coura #3 - May April March Play.

Menina limão (esq.) e Menina Tangerina a.k.a. Saturnine (dir.)
April March - Chic Habit
Lamento desiludir, desfazendo a ideia romântica de que apenas enterrara a cara na lama durante o festival, mas eu cheguei mesmo a divertir-me, ali pelo meio da tarde, com o rádio do carro a salvar o deserto musical típico da hora do dia. Inventaram-se coreografias e abanou-se mais o rabiosque aquando da passagem-própria-para-consumo do sexo oposto. Entre as bandas sonoras do Tarantino, os Gogol Bordello, os Buraka Som Sistema e uma ou outra paneleirice, a trupe mais citrina do festival esqueceu os infortúnios e fez da parvalheira total o único manual de sobrevivência. Toda a gente sabe que o jazz na relva e o palco ibérico são para maricas.
Saturnine, arrependida de me encarregar do make-up?
(the horniest mothafucka on the road is having a mothafuckin' good time laughing at your hair, weirdo)
Exceptuando Death Proof, Bug e The Simpsons, que já vi e recomendo, deduzo que o método surrealista seria o único capaz de tornar interessante o visionamento dos filmes que estão em exibição neste momento em Aveiro.
They had their own way of going to the movies. Breton, the surrealist leader, and his friends, used to wander from one picture house to another, buying tickets without consulting the programme, entering and leaving on a whim, relishing the visual collage thus put together in their heads as if it were a single film. The surrealist as spectator would transmute pulp mass entertainment, into a source of private illumination. Aberrant readings, crazy interconnections and delirium of interpretation was the surrealists’ way with the movies.
Robert Short, sobre o movimento surrealista no cinema, a propósito de Un Chien Andalou, de Louis Buñuel.
Bug Psychosis

Não me lembro da última vez que me senti tão mal no cinema. É possível que nunca me tenha sentido assim. Sabia que na origem do argumento estava um texto dramático, da autoria de Tracy Letts. Talvez por isso nunca me tenha saído da cabeça a Sarah Kane. Aquilo que as suas personagens têm de desequilibrado, de torturado, de abismal, aproxima-se do que as personagens de Bug têm de paranóico e doentio. Mas esse torniquete em que respiram as personagens de Sarah Kane é o que elas têm de lucidez e é essa lucidez que nos arrasa. Não se pode dizer que em Bug essa lucidez não exista apenas porque a sanidade das suas personagens se vai diluindo à medida que o tempo se esgota. É precisamente a asfixia, a constante e profunda tensão, a atmosfera irrespirável em que mergulhamos ao primeiro minuto e da qual nunca saímos (é talvez o feito mais admirável do filme), que faz da obra uma bomba-relógio a explodir no ecrã e a implodir cá dentro. É um dos mais apoteóticos e belos e intensos finais que o cinema já nos deu a ver e é sem dúvida um dos filmes que arquivarei na secção dos “incómodos”, porque me fere onde já existe ferida não sarada. O medo é um enorme parasita, talvez o maior deles todos. Lentamente a loucura instala-se, esperando um pequeno rastilho para ser ateada.
Let's see if a Bug is Death Proof.
i'm too sexy for my braces aces aces eh eh eh

© Neil Holden, uma prenda da tóxica, sempre a zelar pelos meus interesses
She ain’t gonna put me in da black book, mothafucka. I ain’t no chicken shit. I’m a bad mothafucka. But i like the mothafuckin’ umbrella. And i think ya'll should know, it’s her mothafuckin’ fault.
bitch, YO ass is mine.
(se admiração existe perante o palavreado, limão ordena: do yourself a favor e vá ver o Death Proof)
o Hino omnipresente do meu muito meu Paredes de Coura 2007

© sporadycznie
Electrelane - Cut And Run
A música que as Electrelane não tocaram em Paredes de Coura e ainda bem porque, a lembrar os National há uns anos naquele mesmo lugar, havia demasiada claridade para eu poder viver a intimidade do meu arraso.
seeing you here it makes me smile
i hear you laugh and all day i am waiting to be next to you
hoping that you feel the same way
it seems like you're moving away
if it's the end i need to know before i have to let you go
i'm just not ready to be alone
say it say it now
you're not in love with me no more
i'll try my best to catch up with you
say it say it now
you're not in love with me no more
i'll try my best to catch up with you
say it say it now
say it say it now
say it say it now
say it say it now
say it say it now, you're not in love with me no more
i'll try my best to catch up with you
oh oh oh, oh oh oh
oh oh oh, oh oh oh
(do do do)
we're like fish in the sea
and i thought you were the one for me
baby i'm afraid of change
but i think it's more that i still like you
just as much as when we met
i dont' want to sleep alone and think of you with someone else
holding them when i still want to reach for you and hold you close in the night, you know i still love you…
say it say it now
say it say it now
say it say it now
say it say it now you're not in love with me no more
i'll try my best to catch up with you
oh oh oh, oh oh oh
oh oh oh, oh oh oh
oh oh oh, oh oh oh
oh oh oh, oh oh oh
(do do do)
we're like fish in the sea
and i thought you were the one for me
(do do do)
we're like fish in the sea
and i thought you were the one for me
oh oh oh, oh oh oh
oh oh oh, oh oh oh
oh oh oh, oh oh oh
oh oh oh, oh oh oh
A música que as Electrelane tocaram em Paredes de Coura e ainda bem porque sou masoquista.

© Cristo Stankulov
Electrelane - To The East
You didn't know where to go
Walking around in this flag-waving town
I saw you waiting for a train
And you disappeared
Your face pressed up to the window
You went so far away
And I want to come there too
I want to be with you
I'm just waiting until you say these words :
"Come back, come back, come back, oh, to me...
I'm living near Gdànsk, there's a train, you'd be here soon
There's a life for me and you
The East means so many things
But it could be home, it could be home, it could be home, it could be home
For you and me
It could be home, it could be home, it could be home, it could be home
Come back, come back, come back, oh, to me..."
And if you'd ever say these words
I'd come to you, where you are
It's too hard to be apart
The East's not so far away
And it could be home, it could be home, it could be home, it could be home
For you and me
It could be home, it could be home, it could be home, it could be home
Come back, come back, come back
Oh, to me...
Paredes de Coura #1

© Tylerdrunken
Habituamo-nos a ler os lugares segundo determinados prismas que não raras vezes adoptam a forma de pessoas. De repente, Paredes de Coura assumiu um travo amargo e eu não estava certa de me apetecer vestir a roupa velha, no velho lugar de velhas companhias com tão pesada novidade nos bolsos. Nós mudamos, a nossa vida muda, tudo muda demasiado e deixa de apetecer fazer dos contextos velhos a nossa casa.
Se vou a Paredes de Coura não é pelo cartaz, mas porque ela me ofereceu um lugar. Vou por ser quem é e porque, nesta altura da minha vida, em jeito de sobrevivência, preciso de sangue novo, novos olhares, novos ouvidos, novos sorrisos – novos alentos que façam parecer o fim uma transição e não um afogamento.
Por vezes, é preciso inverter a marcha e irmos onde nos dói, impormo-nos o embate, forçar a realidade que nos impele a fuga. E se assim é, que seja com o bálsamo das boas conversas e da cumplicidade. Que seja com o aconchego das novas promessas.
Chego para a consulta mensal vestindo preto. Ela pergunta “elásticos cor-de-rosa ou azuis?”, eu respondo “cor-de-rosa, para variar”. Não satisfeita com a resposta, insiste “e se intercalássemos as duas cores? Um rosa, um azul, um rosa, um azul…”. Recuso. O sentido de humor da minha dentista é extraordinário. O meu não chega a tanto.
(entretanto, o meu irmão revela por sua vez o seu sentido estético: “podes combinar os elásticos cor-de-rosa com a tua nova pregadeira”. Yep. E ainda combino com o meu próprio blog. Pois.)
os calcanhares são um lugar inalcançável.

Um dia eles chegam e dizem-nos estamos juntos e o nosso sentimento é de incredulidade. Vamos estabelecendo mentalmente todos os requisitos que exigimos como mínimos àquela que nos sucede e cuja ausência assinalamos. A verdade é que há poucas coisas piores que o sentimento da má sucessão. Mas depois, para quê mentirmo-nos? O sentimento da boa sucessão não existe. Sirva ou não os parâmetros que estabelecemos, o problema está na sucessão ela mesma.
das leituras estivais #1
De resto, concluo que Ana Hatherly é muito cínica. Por exemplo:
206
Como resolver o amor: jovem par idealista com infinitas crianças à volta (little undignified pigs, because all animals become undignified when kept)? Caramba, em que espantosa complicação simplificada se resumem as paixões humanas!
Ou então:
221
(…) Porque na verdade não se ama nunca, só se deseja. – tisana que eu adornei com um “mentirosa”)
Mas como ela própria o escreveu:
411
Como aconteceu com aquele célebre poeta árabe de Silves, a minha ironia tornou-me respeitável. Que ironia! Ninguém viu a áspera corrosão de uma lágrima que não cai, que não se deixa cair.
Se eu fosse um vídeo
Pitter Patter Goes My Heart
[Um vídeo que é tudo o que quis dizer-lhe quando fiz desta música uma história a dois.]
Encontro nacional de citrinos
Voltarei com estas pregadeiras-limões e um sorriso de elevado grau de contentamento. Afinal, vou (só) conhecer uma das meninas com mais talento para a escrita de toda a blogosfera.
Conversations With My Window Reflection
Como estou a menos de um mês de abandonar esta cidade, esta casa, este quarto, esta janela e como a letra desta música continua estupidamente a fazer sentido, publico-o também aqui.
Porque por vezes nem dentro de casa nos abrigamos da chuva.
© Menina Limão
Dear Architects, I am sick of your shit
Architects love to discuss how much sleep they have gotten. One will say how he was at the studio until five in the morning, only to return again two hours later. Then another will say, oh that is nothing. I haven’t slept in a week. And then another will say, guess what, I have never slept ever. My dear architects, the measure of how hard you’ve worked and how much you’ve accomplished is not related to the number of hours you have not slept. Have you heard of Rem Koolhaas? He is a famous architect. I know this because you tell me he is a famous architect. I hear that Rem Koolhaas is always sleeping. He is, I presume, sleeping right now. And I hear he gets shit done. And I also hear that in a stunning move, he is making a building that looks not like a glass cock, but like a concrete vagina. When you sleep more, you get vagina. You can all take a lesson from Rem Koolhaas.
(...)
Annie Choi, an open letter
vale a pena ler o texto completo aqui.
Andanças #1
O Andanças parece um arraial no fim-de-semana (não me apanham num para a próxima) e não existe espaço suficiente para se dançar nos workshops e nos concertos.
Crítica sou sempre, mas justa. Afinal...foi uma delícia.







